Desvendando os benefícios do cacau com… Meu pai!

pai

Há um tempinho atrás, pouco antes do domingo de Páscoa, fiz um post aqui no blog sobre os benefícios do chocolate para a nossa saúde, beleza e bem-estar. Embora eu não faça o tipo chocólatra, sempre me interessei por essa delícia, pois tive a chance de acompanhar ao longo da minha vida todo os processos de produção agrícola e industrial do cacau e do chocolate por causa do meu pai, que é considerado, há anos, uma das melhores referências quando o assunto é produção de amêndoas de cacau, dentro e fora do Brasil.

Aos 81 anos, com mais de uma centena de trabalhos técnicos e científicos publicados, Fausto Coral é um especialista estudioso da cacauicultura. Ele é engenheiro agrônomo, cacauicultor, cientista, professor e, para minha sorte, meu pai. Eu poderia ficar horas e horas falando sobre ele aqui, mas prefiro compartilhar com vocês um bate-papo especial que tivemos sobre o cultivo do cacaueiro e as propriedades do chocolate. A entrevista ficou bem legal e não deixa de ser, é claro, uma singela homenagem ao Dia dos Pais. Espero que gostem! 🙂

Claudia Coral: Para iniciarmos, gostaria que o senhor fizesse um breve resumo sobre sua experiência profissional como especialista em cacau.
Fausto CoralSou formado em Engenharia Agronômica pela ESALQ – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, de Piracicaba, desde 1959 e durante o período de 1968/70 estudei no Instituto Interamericano de Ciências Agrícolas da O.E.A , obtendo o grau de Magistri Scientiae em Genética e Melhoramento com tese original na área de cacau.

Comecei a exercer a profissão em Campinas a partir de 1960, depois de ter passado num concurso público do antigo Departamento da Produção Vegetal da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, começando a trabalhar com Plantas Oleaginosas, especialmente, amendoim. Lá permaneci por, aproximadamente, três meses para, em seguida, submeter-me a outro concurso visando meu ingresso no Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Nesta instituição de pesquisa científica, dei continuidade aos trabalhos com amendoim, dedicando-me integralmente à área do melhoramento genético por três anos. Posteriormente, trabalhei na área de Assessoramento Técnico junto à Diretoria Geral do IAC, por um período de seis meses.

Por influência literária, calcada nas obras de Jorge Amado, passei, depois, a interessar-me pelas “coisas do cacau”. Como o assunto era novo e a antiga Seção de Plantas Tropicais do IAC ressentia-se naquele momento de um maior número de profissionais, solicitei minha transferência para aquela unidade de pesquisa, onde passei a trabalhar em meados de 1963. Com o passar dos meses, pude perceber que a cacauicultura, se bem estudada e trabalhada, poderia se converter numa feliz iniciativa para algumas áreas do Estado de São Paulo. Para viabilizar o evento, programamos e implantamos uma série de pequenos experimentos em áreas potencialmente aptas do Estado, com a finalidade de avaliar o comportamento do cacaueiro nas diferentes condições agrobioclimáticas do Estado carentes de novas opções agrícolas. Paralelamente, enquanto os cacaueiros implantados nesses experimentos se desenvolviam, íamos com o necessário critério, promovendo a introdução de novos materiais genéticos, com a finalidade de se poder dispor a qualquer hora de uma fonte segura às diferentes enfermidades que costumam afligir o cultivo. Concomitantemente a esses trabalhos, a pesquisa científica, sob nossa responsabilidade, passou a produzir uma gama de novos e promissores cultivares híbridos (mais de 150 novas combinações) para poder suprir, num futuro próximo, o exigente mercado chocolateiro. Cabe aqui mencionar que, em 1963, ao serem iniciados os trabalhos de pesquisa do cacau no IAC, contava–se com duas dezenas de germoplasmas clonais introduzidos de diferentes regiões cacaueiras e aproximadamente outras 1.000 plantas, de livre polinização, implantadas nas regiões do Litoral Norte e Vale do Ribeira. Por volta de 1996, o IAC contava com mais de 150 clones introduzidos, mais de 160 novas seleções locais e outras 150 novas combinações híbridas inter clonais, perfazendo um total de 26.000 plantas individualmente controladas, em 92 projetos de natureza científica. Todos esses trabalhos permitiram ao Estado concretizar o que se convencionou chamar de Programa de Expansão da Cacauicultura do Estado de São Paulo (PECASP/78).

Pude representar nosso País em diversas Conferências Nacionais e Internacionais, podendo participar, na qualidade de Professor e Conferencista Convidado, num bom número de Universidades Nacionais e de outros países Latino-americanos.

De junho/85 a julho/96, tive a oportunidade de trabalhar no Peru, como Assessor Especial das Nações Unidas e da Organização dos Estados Americanos, com a finalidade de promover a substituição dos cultivos ilícitos de coca por cultivos alimentares (cacau).

Claudia: Por que o cacau faz bem? Ele é mesmo um poderoso antioxidante?
Fausto: As amêndoas de cacau, com as quais se preparam diversos tipos de chocolate, propiciam muitos benefícios à saúde das pessoas. De acordo com estudos recentes realizados, sua potencialidade como um poderoso antioxidante natural já se confirmou, pois a matéria-prima, que dá origem ao apreciado chocolate, é rica em flavonoides. Os flavonoides, como se sabe, combatem os radicais livres presentes em nosso organismo, ajudando a diminuir os riscos de doenças cardiovasculares e de câncer, além de baixar o colesterol ruim e reduzir a pressão arterial, diminuindo as chances de derrames, melhorando a pele e protegendo nosso cérebro. O cacau possui anda um bom percentual de vitaminas e sais minerais, ferro, zinco, magnésio, cálcio e manganês. 

Claudia: Como o cacau brasileiro está comparativamente em relação aos produzidos ao redor do mundo? Somos uma referência em tecnologia e qualidade?
FaustoO cacau brasileiro é de excelente qualidade com aroma e sabor característicos, porém, podem apresentar um certo grau de acidez, possível de ser eliminado. O Brasil está produzindo um chocolate de excelente qualidade, comparável aos produzidos nos principais países tidos como produtores de chocolate de alta qualidade.

Claudia: Existe diferença entre as espécies de cacau?
Fausto:
 Sim. O cacau é originário das regiões tropicais da América do Sul e Central. Existem três grandes grupos de cacaueiros: Forastero, Criollo e Trinitário, cada um com suas características próprias.

Claudia: Se pudesse elencar a origem (países) dos melhores chocolates do mundo, quais seriam os cinco primeiros do ranking?
Fausto: Dentro do mesmo país, você pode ter indústrias que fabricam chocolates com maior ou menor qualidade. No geral, os chocolates produzidos na Europa costumam ser de qualidade superior, porém, pode-se degustar um excelente chocolate produzido também no Brasil.

Claudia: Chocolate branco é chocolate?
Fausto:
 Não existe chocolate branco. O chocolate branco que conhecemos é na verdade, manteiga de cacau, leite e açúcar.

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